Homero
Os gregos atribuíam a Ilíada e a Odisseia a um único poeta, Homero, que a tradição imaginava cego e natural da Jônia, na costa da atual Turquia. Quase nada se sabe dele com segurança. Os estudiosos costumam situar a composição dos poemas por volta do fim do século VIII ou do século VII a.C.
A chamada questão homérica pergunta se houve de fato um autor, vários, ou uma longa tradição de cantores que foi se fixando aos poucos. No século XX, os estudos de Milman Parry e Albert Lord sobre cantores épicos dos Bálcãs mostraram que esses poemas carregam as marcas da composição oral: fórmulas repetidas, versos prontos, epítetos que se encaixam no ritmo. Seja como for, a Odisseia que lemos tem uma arquitetura tão calculada que muitos leitores continuam vendo nela a mão de um grande poeta.
No próprio poema há dois retratos de cantores: Fêmio, em Ítaca, e Demódoco, o aedo cego dos feácios, em quem a Antiguidade quis ver um autorretrato de Homero.
A Guerra de Troia
Páris, príncipe de Troia, levou Helena, mulher do rei Menelau de Esparta. Os gregos, liderados por Agamêmnon, irmão de Menelau, cercaram a cidade por dez anos. A Ilíada conta algumas semanas do último ano dessa guerra, centradas na fúria de Aquiles. A cidade só caiu graças a um ardil de Odisseu: o cavalo de madeira, cheio de guerreiros, que os troianos levaram para dentro das muralhas.

A Odisseia pressupõe que o ouvinte conhece tudo isso. A guerra aparece em lembranças: Nestor e Menelau contam os regressos, Helena e Demódoco cantam o cavalo, e no Hades Odisseu reencontra Agamêmnon, Aquiles e Ájax. Se a Ilíada é o poema da glória conquistada em batalha, a Odisseia é o poema do que vem depois: a volta, o preço, a vida que continua.
A forma do poema
A Odisseia tem pouco mais de doze mil versos em hexâmetro datílico, o verso longo da épica grega, dividido em seis pés. A divisão em vinte e quatro cantos, um para cada letra do alfabeto grego, é tradicionalmente atribuída aos estudiosos de Alexandria, muito depois da composição.
O poema começa in medias res, no meio das coisas: quando ele abre, Odisseu já está há anos preso em Ogígia. As aventuras mais famosas, do Ciclope às Sereias, são contadas pelo próprio herói, num longo relato aos feácios, nos cantos IX a XII. Isso faz de Odisseu, mestre da mentira, o narrador das suas próprias maravilhas.
Os epítetos são outra marca: Odisseu “de muitos caminhos”, Atena “de olhos glaucos”, a Aurora “de dedos róseos”. Eles ajudavam o cantor a compor e o ouvinte a reconhecer.
Os grandes temas
O regresso
Os gregos tinham uma palavra para isso, nóstos, a volta para casa. Dela e de álgos, dor, um médico suíço cunhou no século XVII a palavra nostalgia. Toda a Odisseia é sobre um homem que recusa a imortalidade oferecida por Calipso para voltar a uma ilha pobre, a uma mulher que envelheceu e a um filho que não conhece.
A hospitalidade
A xenía, o dever de acolher o estrangeiro, protegido por Zeus, é a régua moral do poema. Os feácios e o porqueiro Eumeu acolhem; o Ciclope devora os hóspedes; os pretendentes comem a casa de outro homem e humilham um mendigo. Cada episódio pode ser lido como uma prova de hospitalidade.
A inteligência
Odisseu vence pela mêtis, a inteligência astuta: o cavalo, o nome Ninguém, o disfarce de mendigo. Penélope vence com a mesma arma, a teia desfeita, a prova do arco, o segredo da cama. O poema é, entre outras coisas, a história de um casamento entre dois iguais.
A identidade
Odisseu passa boa parte do poema sem nome: é Ninguém para o Ciclope, um náufrago para os feácios, um mendigo em sua própria casa. Seu regresso é também uma série de reconhecimentos: pelo cão, pela ama, pelo filho, pela mulher, pelo pai.
A Odisseia em português
O poema tem uma longa história em nossa língua. No Brasil, o maranhense Manuel Odorico Mendes traduziu os dois poemas homéricos em verso no século XIX, num português deliberadamente arcaizante e cheio de palavras compostas inventadas por ele. Carlos Alberto Nunes fez no século XX uma tradução em versos longos que imitam o ritmo do hexâmetro.
Mais recentemente, Frederico Lourenço publicou em Portugal uma tradução de grande sucesso (2003). No Brasil, Trajano Vieira (2011) e Christian Werner (2014) lançaram traduções novas, ambas diretamente do grego. Quem quiser começar pode escolher pela voz: mais poética, mais literal, mais fluente. Os versos citados neste site são traduções livres.
